Na base do desgaste: Flamengo vira, domina o Santos e faz história no Maracanã”
O Veredito do Atrito: A Noite em que o Maracanã Assistiu à História e à Estratégia de Leonardo Jardim
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Havia uma eletricidade quase devocional no ar deste domingo de Páscoa. No Maracanã, 68.615 torcedores converteram o templo do futebol em um caldeirão de expectativas e cobranças. O Flamengo entrava em campo sob o peso de uma derrota acachapante para o Bragantino, enquanto o Santos, desprovido da genialidade de um Neymar suspenso, apresentava-se como um enigma tático sob o comando de Cuca. O que se viu, contudo, foi um roteiro de paciência estratégica que culminou em uma apoteose histórica.
O primeiro ato foi um exercício de resiliência psicológica. Entre vaias e impaciência, o Flamengo encerrou a etapa inicial sem balançar as redes, apesar de um domínio territorial avassalador. Mas, no tabuleiro de Leonardo Jardim, as peças se moviam com um propósito silencioso: o extermínio pela exaustão.
A “Armadilha de Cansaço” de Leonardo Jardim
A vitória rubro-negra por 3 a 1 não foi um acidente de percurso, mas a validação de um plano de desgaste meticuloso. No primeiro tempo, o Flamengo manteve uma posse de bola superior a 70%, promovendo um efeito “pêndulo” que obrigava o bloco baixo santista a percorrer distâncias laterais hercúleas sob o sol do Rio de Janeiro.
Não era uma posse passiva; era atrito puro. Jardim revelou que a intenção era “desmontar” o adversário através do volume de jogo. Ao ditar o ritmo e forçar transições defensivas constantes, o técnico português drenou o tanque de oxigênio do Peixe. Mesmo quando Lautaro Díaz abriu o placar para os visitantes aos 2 minutos do segundo tempo, o Santos já operava na reserva.
“Na segunda parte, não tínhamos pernas para andar atrás de vocês.” — Cuca, em conversa franca com Jardim após o apito final.
VAR, Nervos e a Ascensão de Pedro
A montanha-russa emocional atingiu seu ápice aos 8 minutos da etapa final. Léo Ortiz chegou a empatar, mas o VAR, em uma interrupção de seis minutos que testou a sanidade das arquibancadas, anulou o tento por impedimento. O Maracanã flertou com o caos, mas a justiça poética viria dos pés — e da cabeça — do novo dono da casa.
Aos 18 minutos, após cruzamento cirúrgico de Carrascal, Pedro subiu soberano sobre Zé Ivaldo. O cabeceio foi o selo de uma dinastia: o centroavante atingiu a marca de 161 gols, igualando Gabigol como o maior artilheiro do Flamengo no século XXI e consolidando-se como o quarto maior goleador da história do Maracanã. O simbolismo era cortante, visto que Gabriel Barbosa, o antigo detentor da marca, assistia a tudo do banco santista.
“161 gols de Pedro Guilherme. 6º na artilharia histórica. Mais um degrau na história do Clube de Regatas do Flamengo!” — Publicação oficial do clube após o recorde.
A Virada do “Saltinho” e o Torpedo de Paquetá
A resistência santista desmoronou em sete minutos. Aos 21, Barreal derrubou Arrascaeta na área: pênalti. Jorginho, com a frieza dos veteranos, executou sua marca registrada aos 25 minutos: o “saltinho” que deslocou Gabriel Brazão e colocou o Rubro-Negro na liderança. Era a virada moral de um time que se recusava a ser batido.
O golpe de misericórdia veio do banco de reservas, evidenciando a profundidade abissal do elenco carioca. Aos 43 minutos, Gonzalo Plata protagonizou uma transição vertical fulminante, deixando Luan Peres e Willian Arão para trás antes de servir Lucas Paquetá. O meia, em sua quinta celebração desde o retorno, desferiu um “torpedo” da entrada da área. Um golaço que selou o destino da partida e transformou a pressão inicial em êxtase.
A Mística de 2011 e o Peso do Histórico
Enfrentar o Santos é sempre evocar o fantasma do antológico 5 a 4 de 2011, o “maior jogo do século 21”. Embora o placar de 2026 tenha sido mais contido, a voltagem ofensiva honrou a tradição. Conforme os dados da Lancepédia, o Flamengo ampliou sua hegemonia no Campeonato Brasileiro Unificado (desde 1971): agora são 31 vitórias rubro-negras contra 23 do Peixe e 22 empates.
É um clássico que, independentemente do momento técnico, preza pela plasticidade. Como bem definiu Gustavo Poli sobre o embate histórico de Ronaldinho e Neymar, são jogos “para emoldurar na galeria mental”.
O Horizonte Rubro-Negro
A vitória providencial no Maracanã pacifica a Gávea antes da estreia na Libertadores contra o Cusco, no Peru. Para o Santos de Cuca, resta a urgência de ajustes defensivos antes do compromisso pela Sul-Americana contra o Deportivo Cuenca. O Flamengo sai de campo com os três pontos e uma certeza: sua força bruta agora é guiada por uma inteligência tática que sabe esperar o oponente sucumbir ao próprio cansaço.
Takeaway Final: Em um futebol cada vez mais físico e pautado pelo rigor atlético, a estratégia de Jardim de “vencer pelo desgaste” seria o novo padrão áureo para elencos estelares, ou o talento individual de nomes como Pedro e Paquetá ainda é a única bússola que realmente orienta o destino dos grandes clássicos?

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