Michael Jackson: A Vida e o Legado do Rei do Pop

Michael Jackson nas telas: A 98 Rio analisa a cinebiografia que fugiu das polêmicas

O Rei do Pop no cinema! A 98 Rio disseca o novo filme de Michael Jackson: entre a performance brilhante de Jaafar Jackson e o roteiro “limpo” que ignorou o lado sombrio do mito.


O Desafio de Retratar um Mito

O que os fãs realmente esperam de uma cinebiografia sobre Michael Jackson? Seria uma exploração visceral da genialidade e das contradições que definiram o Rei do Pop, ou apenas uma celebração higienizada para consumo de massa? Retratar Michael é, possivelmente, o maior campo de minas da cultura pop contemporânea. O novo filme dirigido por Antoine Fuqua tenta atravessar esse terreno, mas o resultado é um entretenimento de navio de cruzeiro: visualmente polido, tecnicamente competente, mas frustrantemente raso e inerte.

O “Elefante na Sala” Ignorado

A maior falha da obra é sua escolha deliberada de contornar as controvérsias mais densas. O filme opta por um recorte temporal seguro, deslizando pela vida de Jackson desde os tempos do Jackson Five até o ápice de sua carreira solo, culminando no show do Estádio de Wembley em 1988. Ao parar exatamente onde a narrativa pessoal de Michael se torna mais sombria, a cinebiografia se transforma em uma hagiografia corporativa, insossa e polida.

“A cinebiografia de Michael Jackson, dirigida por Antoine Fuqua, oferece o chimpanzé, a lhama, a girafa… mas não o elefante na sala.”

Essa omissão é cirúrgica. Ao nos dar a “coleção de animais” — as excentricidades superficiais —, o roteiro evita o peso das alegações que viriam a seguir, tratando o biografado com uma distância quase museológica que o protege de qualquer escrutínio real.

MICHAEL JACKSON
MICHAEL JACKSON

Uma Coleção de Clichês de Filmes de Música

Narrativamente, Michael não se esforça para romper com as fórmulas saturadas do gênero. Em vez de uma história original, o espectador recebe o que parece ser uma montagem de trailer de 127 minutos. O filme “patina” pela vida de Jackson, acumulando tropos previsíveis: o produtor boquiaberto no estúdio, a subida rápida nas paradas e os executivos corporativos ranzinzas.

Um dos poucos momentos de textura visual vem da participação especial de Mike Myers como o presidente da CBS, Walter Yetnikoff, intimidando a MTV para exibir os clipes de Michael. No entanto, mesmo esses momentos parecem peças de um quebra-cabeça genérico, retirando a urgência e a singularidade da trajetória de um artista que, na vida real, quebrou todos os paradigmas.

Jaafar Jackson e o Único Ator que “Soltou as Rédeas”

https://www.theguardian.com/film/2026/apr/21/michael-review-cliched-jackson-biopicA performance de Jaafar Jackson é um estudo de contrastes. O sobrinho de Michael demonstra um talento intuitivo fenomenal, replicando a dança e o carisma de palco com precisão. Contudo, fora dos holofotes, o roteiro o limita a uma “voz de passarinho passivo-agressiva e infantil”, entregando uma doçura sorridente que nunca é questionada.

O brilho técnico de Jaafar nas sequências musicais é ofuscado por um personagem que carece de interioridade e paixão. Em meio a esse vazio, apenas um ator realmente se destaca: Colman Domingo. No papel do patriarca Joe Jackson, Domingo é o único autorizado a “soltar as rédeas”, entregando uma performance feroz e magnética como o vilão da história, explorando brutalmente seus filhos por cada centavo. Enquanto Nia Long e o restante do elenco de apoio permanecem quase mudos, Domingo domina a tela com uma vilania digna de pantomima.

A Influência do Espólio e o Conflito de Interesses

A presença de John Branca — advogado de longa data de Michael e executor de seu espólio — como produtor do filme explica muito sobre o tom “higienizado” da obra. Não é coincidência que o personagem de Branca, interpretado por Miles Teller, ganhe um destaque desproporcional na trama.

O roteiro de John Logan evita estrategicamente mostrar Michael como uma vítima de abuso por parte de seu pai de uma forma que gere consequências psicológicas claras. Essa omissão impede que o público entenda a relação de causa e efeito que poderia explicar os comportamentos mais complexos e perturbadores de Jackson em sua fase adulta. Assim como ocorreu em MJ: The Musical, a produção parece mais interessada em preservar o valor da marca do que em enfrentar a verdade humana.

O Enigmático “A História Continua”

O encerramento abrupto em 1988, com o letreiro final anunciando que “A história continua”, é quase uma provocação. Isso sugere a possibilidade de um “Michael 2”, mas levanta uma questão fundamental: como a família Jackson e os produtores pretendem abordar os anos marcados por escândalos e comportamentos cada vez mais perplexos?

Para que uma sequência seja honesta, o cinema de Fuqua precisaria abandonar o estilo “limpo” atual e adotar uma coragem narrativa que este capítulo ignorou completamente. Sem isso, qualquer continuação será apenas mais um exercício de negação corporativa.

O Que Resta do Rei do Pop?

Ao final, Michael funciona apenas para quem deseja manter intacta a nostalgia dos anos 80. O filme falha em humanizar o mito, preferindo tratá-lo como uma divindade intocável. Ele falha como biografia ao omitir as sombras em nome do entretenimento seguro.

Fica o questionamento para o público e para a indústria: até que ponto uma cinebiografia pode omitir a verdade em nome do lucro corporativo antes de perder sua alma? Michael Jackson permanece, mesmo após duas horas de projeção, uma figura enigmática, protegida por um muro de silêncio que o filme se recusou a derrubar.

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