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Morre Milton Naves, Lenda da Rádio Itatiaia

Conheça a trajetória e as lições de carreira de Milton Naves, o “Senhor Copa” da Rádio Itatiaia, uma das maiores lendas do rádio esportivo mineiro que faleceu aos 70 anos.


O rádio brasileiro e mineiro está em luto com a partida de Milton Naves, aos 70 anos, em Belo Horizonte. Por quatro décadas, sua voz transformou o dial em uma tela onde o ouvinte “enxergava” a bola. Conhecido pelo bordão “Show de Bola”, Milton foi um dos pilares da “Linhagem de Ouro” da Rádio Itatiaia, convivendo com lendas como Osvaldo Faria, Alberto Rodrigues e Willy Gonser.

Nascido em Ilicínea e criado em Alfenas, ele conquistou o respeito de torcidas rivais em um estado polarizado, construindo um legado que atravessou a era do rádio analógico até a revolução digital do “rádio expandido”.


1. Vocação e Preparação Acima de Credenciais Formais

A carreira de Milton Naves começou em 1974, aos 17 anos, quando venceu um teste na Rádio Cultura de Alfenas contra 34 universitários. Sua estreia oficial nos gramados ocorreu em 1977, no jogo entre Flamengo e Caldense, narrando lances de craques como Junior, Carlos Alberto Torres e Adílio.

Incentivado por sua mãe e pelo professor de português Lincoln Westin da Silveira, ele trocou o vestibular de odontologia pela comunicação. A trajetória demonstra que a autoridade técnica nasce da base sólida e da coragem de seguir a vocação.

Morre Milton Naves, radialista esportivo, aos 70 anos | CNN PRIME TIME

2. Consistência e a Bagagem de um “Senhor Copa”

Manter-se no topo por quarenta anos exigiu disciplina. Aos 22 anos, Milton cobriu o Mundialito de 1980/81 em Montevidéu e, em 1982, estreou em Copas do Mundo na Espanha, dividindo o microfone com Willy Gonser.

Ao todo, cobriu 9 Copas do Mundo (de 1982 a 2018, exceto 1986) e 13 edições da Copa América. Narrou seis finais de Mundial, incluindo o primeiro tempo do Pentacampeonato em 2002. Seu mantra de abertura definia sua longevidade:

“Estou fazendo o que gosto, transmitindo um jogo de bola.”

3. Imparcialidade como Ativo de Marca e Blindagem Ética

Apelidado de “O Comentarista que Narra”, Milton construiu sua marca na sobriedade e na precisão tática. Embora tenha sido a voz principal das glórias do América entre 1990 e 2004 — incluindo o gol do título da Série B de 1997 —, ele mantinha o respeito de atleticanos e cruzeirenses. Em um mercado que frequentemente premia o clubismo, sua imparcialidade funcionou como um escudo ético de longo prazo.

4. Versatilidade e Integridade Profissional

Milton atuou como narrador, redator, coordenador e apresentador do programa Rádio Esportes por mais de 35 anos, além de comandar o Troféu Guará por décadas. Essa versatilidade era sustentada por uma integridade inegociável, sintetizada em seu conselho aos estudantes de comunicação:

“Não tenha vergonha de ser honesto. Não é possível que um dia não valha a pena.”

5. Adaptação Tecnológica sem Perda de Essência

Milton simbolizou a transição bem-sucedida do rádio tradicional para a era digital e das transmissões em vídeo no YouTube. Sob a gestão da Família Menin na Itatiaia, integrou-se ao conceito de “rádio expandido”. Ele dominava a métrica necessária para que a imagem digital não sufocasse a essência do áudio, provando que a inovação tecnológica deve caminhar junto com a credibilidade.


O Eco do “Show de Bola”

O microfone de Milton Naves se desligou, mas sua elegância e precisão técnica permanecem como referência para as futuras gerações. Diante de um cenário de comunicações cada vez mais parciais e ruidosas, seu legado deixa a provocação de como resgatar a sobriedade e a técnica para desenhar o jogo na imaginação do público.

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