o crescimento de cobranças abusivas e práticas ilegais, como a consumação mínima, em praias do Rio de Janeiro
Preços abusivos nas praias do Rio estão transformando o paraíso em pesadelo financeiro. Descubra as táticas ilegais, os valores chocantes e o que você pode fazer para se proteger.
Praia Carioca: Quando o Paraíso Cobra Pedágio (E Nem Te Avisam o Preço)
Sabe aquele momento em que você tá quase derretendo no calor, a areia queimando o pé, e tudo que você quer é um guarda-sol pra sentar e relaxar? Pois é. No Rio de Janeiro, essa decisão simples virou um jogo de cassino. Só que em vez de apostar fichas, você aposta se vai conseguir pagar a conta no final do dia.
A praia carioca — esse cartão-postal que a gente ama, celebra e vende pro mundo inteiro como sinônimo de alegria — virou cenário de uma guerra silenciosa. De um lado, o banhista que só quer curtir o mar. Do outro, uma selva de preços que mudam mais rápido que o humor de quem tá há duas horas esperando ônibus lotado.
E o pior? Você não descobre o estrago até a conta chegar.

🔵 A Loteria da Areia: Mesmo Produto, Preço Que Dobra em Dois Passos
Imagina a cena: você tá em Copacabana, andando pela areia, procurando um cantinho. Para numa barraca, pergunta o preço do guarda-sol: R$ 25. “Opa, dá pra fechar.” Aí o brother do lado fala que na barraca vizinha — tipo, a 10 metros de distância — tá R$ 50.
Cinquenta. O dobro. Pelo mesmo guarda-sol. Na mesma praia. Com o mesmo sol escaldante.
A recepcionista Maria Luíza Oliveira já virou especialista nessa caça ao tesouro involuntária. Ela conta que tenta pagar no máximo R$ 30, porque sabe que esse é o valor “real” praticado. Mas pra conseguir isso, ela precisa andar, comparar, negociar — tudo enquanto o sol castiga e a vontade de relaxar vai embora junto com a paciência.
“Já vimos guarda-sol aqui por R$ 25 e por R$ 50, o dobro do preço”, desabafa Maria Luíza, expondo uma realidade que qualquer carioca ou turista reconhece na hora.
Essa falta de padrão não é só inconveniente — é humilhante. Transforma um momento que deveria ser de descompressão numa espécie de feira de negociação agressiva. E olha que a gente nem começou a falar de comida.
🔴 “Não Tem”: A Tática Favorita Pra Te Empurrar o Prato Mais Caro
Victória Pinheiro, dentista, foi curtir um dia na Praia do Forte, em Cabo Frio. Sentou numa mesa, pegou o cardápio, escolheu uma porção de pastel — seis unidades por R$ 150. Chamou o garçom.
“Não tem.”
Tá bom, né? Escolheu bolinho de aipim. Mesmo preço, fácil de fazer.
“Também não tem.”
Batata frita?
“Não tem.”
Nessa altura, Victória já tava sacando o esquema. Perguntou o que o garçom recomendava. A resposta veio rápida: um trio de frutos do mar por R$ 360.
“A gente se sentiu muito coagido. Não queria vender nada abaixo de R$ 200”, relatou Victória, expondo uma tática que, vamos combinar, beira o escárnio.
Isso não é atendimento. É extorsão com uniforme de garçom.
E não pense que é caso isolado. Em Búzios, turistas denunciaram refeições “simples” — tipo filé de frango com arroz, fritas e salada — saindo por R$ 470. Quatrocentos e setenta reais. Pelo amor de Yemanjá, dá pra fazer um churrasco completo em casa com esse valor.
Mas o detalhe mais revoltante? A tal da “consumação mínima”.
🟣 Consumação Mínima: A Cobrança Que é Proibida (Mas Ninguém Te Conta)
Aqui vai uma informação que vale ouro: exigir consumação mínima é ilegal. Tá no Código de Defesa do Consumidor, preto no branco.
Mas tenta explicar isso pro barraqueiro que te cobra R$ 400 só pra você sentar na sombra. Ou pros quiosques em Cabo Frio e Búzios que impõem valores mínimos de R$ 500. Teve até denúncia de cobrança de R$ 800 — isso mesmo, oitocentos reais — pelo “aluguel de itens de praia”.
Turista gringo, que nem sabe que isso é proibido, paga calado. E sai daqui jurando que nunca mais volta. A gente perde visitante, perde reputação, e no fim quem se lasca é a própria cidade.
Como diz Gutemberg Fonseca, secretário estadual de Defesa do Consumidor: “A praia é um bem público e ninguém pode ser obrigado a consumir para usar mesas, cadeiras ou guarda-sóis.”
Bem público, ouviu? Não é propriedade privada de barraqueiro oportunista.
🟡 O Termômetro da Ganância: Quanto Mais Quente, Mais Caro
Tem uma lógica perversa rolando na orla: quanto mais calor faz, mais caro fica o guarda-sol.
Não é teoria da conspiração. É relato de quem frequenta a praia. A esteticista Thaís Lima percebeu isso no Arpoador, onde o aluguel chegou a R$ 50 nos dias de pico de calor. A sensação, segundo ela e outros banhistas como Cássia Agostini, é que os preços são “definidos na cabeça do barraqueiro”.
Pensa bem: o cara sabe que você tá derretendo. Sabe que você precisa de sombra. E usa isso contra você, como se fosse um refém negociando com sequestrador. É exploração pura da vulnerabilidade situacional.
Com 40°C batendo forte, quem não vai pagar por um guarda-sol? Eles sabem disso. E abusam.
🟢 O Cardápio do Absurdo: Quando Batata Frita Vira Artigo de Luxo
Vamos fazer um exercício de realidade. Anota aí alguns preços reais denunciados por consumidores na orla carioca e na Região dos Lagos:
- Porção de batata frita: R$ 150 (Cabo Frio)
- Porção de calabresa com batata: R$ 120 (Copacabana)
- Filé de frango com arroz, fritas e salada: R$ 470 (Búzios)
- Aluguel de ombrelone: R$ 100 (Copacabana)
- Coco gelado: variando de R$ 8 a R$ 13 na mesma praia
Ah, e tem o bônus: teve gente que pagou R$ 450 por um peixe que tava impróprio pra consumo. Literalmente jogou dinheiro no lixo.
Esses valores não são só altos — são uma afronta. Transformam um dia de praia, que deveria ser democrático, numa experiência exclusiva pra quem pode pagar preço de restaurante estrelado.
🔵 A Batalha do Tabelamento: Quem é Contra e Quem é a Favor (Surpresa!)
Diante do caos, o prefeito Eduardo Paes anunciou que tá estudando tabela os preços na orla. A inspiração? Tel Aviv, em Israel, onde o modelo já funciona.
Mas aí vem o plot twist: nem todo comerciante é contra.
A Orla Rio, concessionária que administra os quiosques, defende a “lógica de mercado”. Traduzindo: cada um cobra o que quiser porque “estruturas diferentes têm custos diferentes”. (Estrutura diferente pra vender o mesmo coco?)
Já a Praia S/A, associação que representa uns 500 barraqueiros, apoia o tabelamento. Isso mesmo. Os próprios vendedores querem preço fixo, desde que participem da discussão sobre os valores.
E tem mais: no Leblon, comerciantes já se organizaram sozinhos pra padronizar preços. Sabe por quê? Porque perceberam que o abuso de alguns tá afugentando cliente de todos.
Como diz Fernando Alves, gerente de uma barraca no Leblon: “A gente procura todo mundo botar o preço tabelado pra não ter abuso de preços.”
Chega a ser irônico. O mercado, quando amadurece, pede regulação. Mas enquanto a lei não chega, o Procon corre atrás, autuando estabelecimentos em Búzios, Cabo Frio e na capital.
🔴 O Que Tá Realmente Em Jogo Aqui
Vou te falar uma coisa: isso não é só sobre o preço de um guarda-sol ou de uma porção de batata. É sobre respeito. É sobre a quebra de um contrato social invisível que sempre existiu entre o carioca e a sua praia.
A praia do Rio sempre foi — ou pelo menos deveria ser — um espaço de encontro. Rico e pobre dividindo a mesma areia, o mesmo mar, o mesmo sol. Mas quando você transforma o acesso ao conforto mínimo num jogo de sobrevivência financeira, você mata isso.
Você cria exclusão. Você faz a praia virar clube privado.
E aí a gente perde muito mais do que dinheiro. A gente perde identidade. A gente perde a alma desse lugar que deveria ser de todos.
O Preço da Nossa Própria Imagem
O Rio de Janeiro vende uma imagem pro mundo: cidade alegre, acolhedora, de braços abertos. Mas como sustentar isso quando o turista sai daqui com a sensação de que foi passado pra trás?
Quando o morador da própria cidade precisa fazer planilha antes de ir pra praia?
A questão não é ideológica. É prática. Ou a gente cria regras claras — seja por tabelamento, seja por autorregulação séria — ou a gente continua vendo nossa maior riqueza virar motivo de raiva e frustração.
Você acha que preço fixo é a solução ou confia que o “mercado” vai se ajustar sozinho? Porque até agora, o que a gente viu foi o mercado ajustando o preço… pra cima. Sempre.




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