Gramado de Ceni e o “sumiço” de Arias: Por que o Fluminense não conseguiu vencer o Bahia mesmo saindo na frente?
O Fantasma de Arias e o Gramado de Ceni: A Ineficiência que Condena o Fluminense na Fonte Nova
A Arena Fonte Nova foi palco, nesta quinta-feira, de um daqueles paradoxos que testam a sanidade do analista. No papel, um 1 a 1 fora de casa contra o organizado Bahia de Rogério Ceni poderia ser lido como um tropeço aceitável. No entanto, o semblante de Luis Zubeldía e o silêncio pesado no vestiário tricolor narravam outra história. O Fluminense deixou Salvador carregando a “sensação amarga” de quem não apenas perdeu a liderança, mas foi traído pela própria incapacidade de traduzir superioridade em números.
O que vimos na Bahia foi o choque entre a evolução tática de um modelo promissor e a fragilidade emocional de um ataque que desperdiça oportunidades com uma displicência quase anacrônica. Em um campeonato de pontos corridos, onde a margem de erro é estreita, o Fluminense flertou com a perfeição coletiva no primeiro tempo para, logo em seguida, sucumbir a erros individuais que custaram dois pontos preciosos.
A Anatomia do Desperdício
O futebol de elite é um ecossistema que não tolera a condescendência. O Fluminense produziu volume para construir uma goleada, mas esbarrou em decisões que beiram o inexplicável. O lance de Serna é o epítome dessa ineficiência: o colombiano recebeu na pequena área, literalmente sem goleiro, e conseguiu enviar a bola para fora. Foi um erro inacreditável, daqueles que mudam o DNA de uma partida e injetam vida em um adversário que parecia entregue.
A ineficiência não parou por aí. Já nos acréscimos, com um homem a mais após a expulsão de Dell, Guilherme Arana ignorou o manual da inteligência tática. Em vez de servir John Kennedy — livre, soberano, pronto para empurrar para as redes —, o lateral optou por um chute egocêntrico que encontrou apenas a linha de fundo. O desperdício não é apenas uma falha técnica; é um sintoma de um time que ainda não aprendeu a “matar” o espetáculo quando ele se oferece.
“Faltou matar o jogo. Tivemos as chances de fazer o segundo e o terceiro, mas não conseguimos converter. No final, pagamos o preço por isso”, desabafou o volante Martinelli, sintetizando o sentimento de uma hegemonia efêmera que não se concretizou no placar.
O Efeito Nonato: Do Protagonismo à Resistência
Taticamente, o Fluminense de Zubeldía atingiu seu ápice enquanto a trinca Nonato, Martinelli e Lucho Acosta esteve em campo. O gol de John Kennedy, após uma tabelinha refinada com Nonato, foi a execução platônica do sistema: cadência, passe vertical e ocupação inteligente de espaços. Nonato era o metrônomo, o responsável por ditar o ritmo e garantir que o Fluminense fosse o protagonista do território baiano.
O ponto de ruptura ocorreu aos 13 minutos do segundo tempo. A saída forçada de Nonato por lesão não foi apenas uma substituição; foi uma mudança de identidade. Com a entrada de Bernal, o Fluminense trocou a posse cerebral pela destruição reativa. Bernal é um operário do combate, mas carece da visão periférica necessária para manter o controle sob pressão. Sem a saída limpa de seu meia, o Tricolor recuou, abdicou da bola e convidou o Bahia para o seu campo. O empate, assinado por Kike Oliveira, foi o castigo final para uma defesa — composta por Jemmes, Fábio e Freytes — que assistiu passivamente ao cruzamento, em uma falha coletiva sintomática.
Gramado em “Horário Comercial” e a Crise da Qualidade
Nem mesmo o empate heróico impediu Rogério Ceni de disparar contra o palco do jogo. Em uma crítica ácida que transcende as quatro linhas, o técnico do Bahia denunciou o estado da Arena Fonte Nova. Para Ceni, a manutenção do campo reflete um desleixo institucional que compromete a qualidade técnica do espetáculo, forçando erros de passe que empobrecem o jogo.
“O gramado não se cuida em horário comercial. Você tem que ter cuidado: acabou o jogo, você tem que estar trabalhando, mas como não fazem absolutamente nada, o gramado vai piorar cada vez mais”, disparou Ceni.
A fala do treinador toca em uma ferida aberta das Parcerias Público-Privadas (PPP). Quando a gestão operacional de uma arena prioriza a burocracia do “horário comercial” em detrimento do tratamento intensivo que um gramado de alto nível exige, o futebol brasileiro regride. O espetáculo torna-se refém de um campo que castiga a técnica e nivela as equipes por baixo.
A Sombra de Jhon Arias e o Teto de Zubeldía

Enquanto a bola rolava em Salvador, um fantasma rondava o banco de reservas: a iminente partida de Jhon Arias para o Palmeiras. A decisão da diretoria tricolor de não cobrir a proposta paulista é um movimento pragmático de saúde financeira, mas que impõe um teto perigoso ao trabalho de Zubeldía. Arias não é apenas um jogador; ele é a válvula de escape que compensa a ineficiência que vimos em Serna e Arana.
Sem o colombiano, o Fluminense perde seu maior diferencial competitivo. A decisão de priorizar o orçamento em vez do campo sugere que o clube aceita uma temporada de “resistência” em vez de protagonismo. Sem Arias, o erro de Serna deixa de ser um acidente e passa a ser a regra. A margem para o desperdício torna-se inexistente.
Entre o Balanço e o Troféu
O Fluminense sai de Salvador com um ponto na bagagem e uma crise de identidade no horizonte. O time de Zubeldía joga um futebol esteticamente prazeroso, mas que carece de instinto predatório. A evolução tática é visível, mas a incapacidade de finalizar as partidas é uma âncora que impede o clube de sonhar com voos mais altos.
Resta ao torcedor o questionamento final: o ponto conquistado na Arena Fonte Nova deve ser celebrado como um sinal de resiliência em meio a uma transição financeira, ou o Fluminense está, deliberadamente, escolhendo a saúde do balanço contábil em detrimento da ambição de títulos? Em um Brasileiro tão implacável, sobreviver sem o seu melhor jogador e sem “matar os jogos” pode ser um preço alto demais para se pagar.

Relatório Técnico: Análise Tática Bahia 1 x 1 Fluminense
1. Contextualização e Ficha Técnica do Confronto
O embate entre Bahia e Fluminense, válido pela 2ª rodada do Brasileirão 2026, apresentou-se como um desafio de alta complexidade tática na Arena Fonte Nova. O cenário era de extrema pressão: o Bahia defendia uma sequência de sete vitórias consecutivas na temporada, consolidando um ambiente hostil que exigia do Fluminense uma resposta estratégica imediata para manter suas pretensões de liderança. Sob o comando de Luis Zubeldía, o bloco do Fluminense entrou em campo com a missão de neutralizar o domínio territorial baiano e a velocidade de transição do adversário, buscando impor sua superioridade técnica através da circulação de bola no terço médio.
| Informação Fundamental | Detalhes do Evento |
| Data | 05 de fevereiro de 2026 |
| Local | Arena Fonte Nova, Salvador (BA) |
| Resultado Final | Bahia 1 x 1 Fluminense |
| Escalação (Bahia) | Ronaldo; Gilberto, David Duarte, Ramos Mingo, Luciano Juba; Nicolás Acevedo, Everton Ribeiro, Jean Lucas; Ademir, Erick Pulga, Willian José. |
| Escalação (Fluminense) | Fábio; Samuel Xavier, Jemmes, Freytes, Renê; Martinelli, Nonato, Lucho Acosta; Canobbio, Serna, John Kennedy. |
| Comissões Técnicas | Rogério Ceni (BAH) e Luis Zubeldía (FLU) |
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2. Dinâmica Tática e Domínio do Meio-Campo (1º Tempo)
O início da partida revelou uma falha crítica na transição defensiva inicial do Fluminense, permitindo que o Bahia criasse oportunidades claras que exigiram duas intervenções providenciais de Fábio antes dos dez minutos. No entanto, o ajuste do bloco permitiu que a equipe assumisse o controle através da superioridade numérica em zona central. A trinca Nonato, Martinelli e Lucho Acosta foi o motor da equipe, promovendo uma circulação de bola fluida que rompeu as linhas de marcação de Rogério Ceni. O gol de John Kennedy aos 14 minutos foi o resultado direto dessa organização: um ataque construído com participação do quarteto ofensivo, culminando em uma assistência vertical de Nonato para a finalização precisa do centroavante.
Análise de Desempenho Setorial:
- Transição Ofensiva e Apoio: A fluidez entre a recuperação e a chegada ao terço final foi garantida pelas triangulações rápidas. O “link” entre o meio e o ataque desestabilizou a compactação baiana.
- Consistência em Duelo Individual: Renê demonstrou alta eficácia defensiva ao neutralizar Ademir, a principal válvula de escape de velocidade do Bahia, bloqueando as progressões pelo flanco esquerdo.
Contudo, a performance foi maculada por uma falha de capitalização em um momento de alto XG (Expected Goals). O desperdício de Serna, que finalizou para fora em uma pequena área desguarnecida, representou uma quebra no fluxo de dominância. No futebol de elite, a falha em “matar o jogo” altera o momentum psicológico, mantendo o oponente vivo apesar da inferioridade tática demonstrada. A estabilidade do modelo de Zubeldía, portanto, tornou-se dependente da manutenção física desse núcleo de articulação.
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3. O Ponto de Inflexão: Impacto Tático da Saída de Nonato
Aos 13 minutos do segundo tempo, a saída de Nonato por lesão muscular desarticulou a geometria do Fluminense. Até então, Nonato atuava como o “diagonal link”, conectando o setor defensivo ao ataque com passes progressivos e cobertura de espaços. A entrada de Bernal transformou o perfil tático da equipe de uma postura de controle para uma de contenção reativa.
Estudo Comparativo: Perfil de Atuação e Consequência Tática
| Atleta | Perfil Tático Observado | Consequência para a 1ª Linha de Pressão |
| Nonato | Controle de ritmo, verticalidade e suporte na criação. | Mantinha o time no campo ofensivo; facilitava o gatilho de pressão alta. |
| Bernal | Solidez defensiva estática e contenção. | Perda de progressão vertical; recuo forçado das linhas e perda da posse. |
Sem a capacidade de retenção e o refino na saída de bola, o Fluminense cedeu o protagonismo. O Bahia, livre da pressão constante na saída, empurrou o bloco carioca para o seu próprio terço defensivo, iniciando um processo de saturação da área que o Fluminense não conseguiu gerir.
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4. Colapso Defensivo e Ineficácia na Tomada de Decisão
O recuo excessivo culminou em um colapso defensivo aos 32 minutos do segundo tempo. O gol de empate de Kike Oliveira foi o resultado de uma reação em cadeia de falhas de scanning e cobertura de área. Jemmes, Fábio e Freytes hesitaram no cruzamento, enquanto Renê demonstrou tempo de reação insuficiente no segundo pau, permitindo a finalização livre. Foi uma falha de comunicação coletiva que evidenciou a vulnerabilidade do sistema sob pressão contínua.
Nos 15 minutos finais, após a expulsão de Dell (Bahia), o Fluminense falhou em traduzir a superioridade numérica em vantagem no placar. A “tomada de decisão sob pressão” foi o ponto mais baixo da performance: aos 48 minutos, Guilherme Arana optou pela finalização individual em um ângulo fechado em vez de executar o passe para John Kennedy, que estava livre e em condições de marcar. Esse lance exemplifica a falta de maturidade tática e a ausência de um “Protocolo de Terço Final” em cenários de 11 contra 10.
Métricas de Ineficácia:
- Deficiência em Box Coverage: Falha múltipla na interceptação de cruzamentos laterais.
- Falha de Julgamento Tático: Priorização do individualismo em detrimento da superioridade posicional.
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5. Variáveis Externas: A Influência do Gramado na Performance
A manutenção do modelo de jogo de Zubeldía — baseado em triangulações e posse — encontrou um limitador crítico nas condições do terreno. O técnico Rogério Ceni foi enfático ao criticar a gestão da Arena Fonte Nova, afirmando que o gramado é cuidado apenas em “horário comercial” e não recebe o tratamento necessário imediatamente após os jogos. Essa negligência administrativa resultou em uma superfície irregular que puniu o estilo de passe curto e cadência do Fluminense.
Para atletas como Lucho Acosta e Nonato, o estado do piso aumentou o índice de erros não forçados, favorecendo o jogo de transição física do Bahia. A irregularidade ambiental agiu como uma variável de atrito, exacerbando a ineficiência ofensiva relatada e contribuindo diretamente para a “sensação amarga” mencionada pela comissão técnica.
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6. Conclusões e Recomendações Estratégicas
O empate representa uma perda de dois pontos estratégicos, fruto de uma superioridade tática de 60 minutos que não foi convertida em vantagem numérica definitiva. O Fluminense demonstrou volume, mas careceu de pragmatismo e inteligência emocional nos momentos de pressão e superioridade numérica.
Diretrizes Estratégicas (Staff Técnico):
- Protocolo de Substituição Crítica: Desenvolver planos de contingência para a ausência de Nonato que não impliquem no recuo imediato do bloco médio. Bernal deve ser treinado para aumentar sua taxa de passes progressivos.
- Mecanismos de Comunicação Defensiva: Implementar protocolos mais rígidos de tomada de decisão entre goleiro e defensores em bolas alçadas, priorizando a varredura da área (box clearance).
- Treinamento de Cenários (Efficiency-first): Realizar simulações de superioridade numérica (11 vs 10) focadas estritamente na tomada de decisão no terço final, penalizando a escolha pela jogada individual quando houver opção de passe de maior probabilidade.
Veredito: A excelência tática inicial foi anulada pela ineficiência na conclusão e pela fragilidade na gestão do jogo pós-substituições. A evolução para a disputa do título passa obrigatoriamente pelo aumento da eficácia na finalização e na manutenção do controle territorial em condições adversas.

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