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Vale a Pena Ver de Novo na 98 FM: Lembra da Viúva Porcina em Roque Santeiro?

Conheça a trajetória de Roque Santeiro, novela que começou como peça proibida em 1963, foi vetada em 1975 e se tornou o maior sucesso da TV brasileira em 1985.


Na noite de 27 de agosto de 1975, faltando poucos minutos para o horário das oito, Cid Moreira interrompeu o Jornal Nacional para ler um editorial escrito por Armando Nogueira. A novela que estrearia naquela noite estava proibida. Havia 51 capítulos escritos, cerca de 30 gravados e 10 editados. Nada disso foi ao ar.

Roque Santeiro só chegaria à televisão brasileira uma década depois, em 24 de junho de 1985, já sob a Nova República — e se tornaria o maior fenômeno de audiência da história da teledramaturgia nacional.

Esta é a história completa da novela, da peça censurada em 1963 ao último capítulo que parou o país em fevereiro de 1986.

Vale a Pena Ver de Novo novela
Foto: Wikimedia Commons — licença Creative Commons

O que foi Roque Santeiro?

Em Asa Branca, cidadezinha fictícia do interior brasileiro, o coroinha Luís Roque Duarte morreu há dezessete anos defendendo a população do bandido Navalhada. Virou santo. A cidade prosperou vendendo medalhinhas, suvenires e milagres em torno do mito.

Só que Roque não morreu. Ele volta, disposto a desmontar a farsa — e encontra uma cidade inteira que depende dela para sobreviver.

A novela foi ao ar pela TV Globo no horário das 20h, de 24 de junho de 1985 a 22 de fevereiro de 1986, em 209 capítulos. Criada por Dias Gomes e escrita por ele e Aguinaldo Silva, com colaboração de Marcílio Moraes e Joaquim Assis. Direção geral de Paulo Ubiratan, com Gonzaga Blota, Marcos Paulo e Jayme Monjardim.

Por que Roque Santeiro foi proibida em 1975?

A origem está numa peça de teatro: O Berço do Herói, escrita por Dias Gomes em 1963 e proibida pela censura militar. A história de um cabo da FEB que deserta e acaba confundido com herói de guerra foi vetada sob a alegação de que denegria a carreira militar. O general Amaury Kruel, ele próprio ex-pracinha, prometeu que a peça jamais subiria ao palco enquanto aquele poder existisse.

Dias Gomes então tirou as fardas da história, transformou o desertor num coroinha santificado e vendeu o projeto à Globo como novela. A sinopse foi aprovada pela Censura Federal em julho de 1975 e a produção correu a todo vapor.

O que derrubou tudo foi um telefonema. Conversando com o historiador Nelson Werneck Sodré — cujo telefone estava grampeado pelos órgãos de informação do governo —, Dias Gomes admitiu que a novela era O Berço do Herói disfarçado, e emendou que os militares não perceberiam. Perceberam. A gravação chegou aos censores e o veto veio no dia da estreia, sob a justificativa oficial de ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes.

Para tapar o buraco no horário, a Globo reprisou Selva de Pedra de forma compacta enquanto Janete Clair escrevia às pressas Pecado Capital, com praticamente a mesma equipe. A existência do grampo só viria a público em 1987, quando o jornalista Ayrton Baffa revelou documentos secretos do SNI.

O que mudou da versão de 1975 para a de 1985?

Betty Faria, a Porcina original, recusou o convite para reviver a personagem. Alegou tanto motivos pessoais quanto uma incompatibilidade de fundo: não gostava dos valores da viúva e queria um papel com consciência, não apenas de sucesso.

Vera Fischer, Sônia Braga, Marília Pêra e Maria Zilda estiveram entre os nomes cogitados. O papel ficou com Regina Duarte, que aceitou numa terça-feira e entrou em estúdio no dia seguinte. Para achar o tom, ela se trancou duas horas numa sala com Paulo Ubiratan, dizendo as falas aos berros até não aguentar mais. Nasceu ali a Porcina que transformaria a “namoradinha do Brasil” na “amante nacional”.

Alguns atores escalados em 1975 puderam enfim fazer seus papéis: Lima Duarte (Sinhozinho Malta), João Carlos Barroso (Jiló), Luiz Armando Queiróz (Tito) e Ilva Niño (Mina).

A grande novidade de texto foi o Padre Albano (Cláudio Cavalcanti), inexistente em 1975. Dias Gomes sugeriu a criação de um padre progressista — o “padre vermelho” — para contrapor o conservadorismo do Padre Hipólito e refletir a divisão real da Igreja Católica com a Teologia da Libertação.

Quem era quem em Asa Branca?

Vale a Pena Ver de Novo
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PersonagemAtor
Roque SanteiroJosé Wilker
Viúva PorcinaRegina Duarte
Sinhozinho MaltaLima Duarte
Padre HipólitoPaulo Gracindo
Florindo Abelha, o Seu FlôAry Fontoura
Dona PombinhaEloísa Mafalda
MocinhaLucinha Lins
Zé das MedalhasArmando Bógus
LuluCássia Kiss
Roberto MathiasFábio Júnior
MatildeYoná Magalhães
Tânia MaltaLídia Brondi
Professor AstromarRui Rezende
Linda BastosPatrícia Pillar
NinonCláudia Raia
João LigeiroMaurício Mattar
Cego JeremiasArnaud Rodrigues
Beato SaluNelson Dantas
RodésioTony Tornado

A arquitetura da sátira está na distribuição dos que lucram com a farsa: cada um representa uma instituição. A Igreja em Padre Hipólito, o Estado no prefeito Florindo Abelha, o empresariado em Zé das Medalhas e o coronelismo — que manda na polícia — em Sinhozinho Malta. Asa Branca era o Brasil em miniatura.

Roque Santeiro foi a primeira novela de Lucinha Lins, Patrícia Pillar e Cláudia Raia, e a primeira na Globo de Othon Bastos e Tony Tornado. Maurício Mattar já havia feito pontas nos capítulos finais de Vereda Tropical naquele mesmo ano, mas foi em Asa Branca que ganhou o primeiro personagem fixo. Cláudia Raia levou o prêmio de revelação feminina da APCA e o título de “pessoa do ano” no Troféu Imprensa.

Quem era o lobisomem de Roque Santeiro?

O Professor Astromar Junqueira, vivido por Rui Rezende. Orador verborrágico, sempre de preto, rosto pálido, sobrancelhas grossas, apaixonado por Mocinha e dono de um bordão inesquecível: pedia licença perguntando se podia penetrar.

Corria na cidade a lenda de que ele se transformava à meia-noite das quintas para as sextas de lua cheia. O maquiador Eric Rzepecki construiu a fera inspirado num pastor-alemão: os pelos eram fios de náilon tingidos à mão e colados com tarlatana, mais orelhas de feltro e dentes de plástico. A transformação no último capítulo é uma das cenas mais lembradas da novela.

A música que anunciava o mistério era “Mistérios da Meia-Noite”, de Zé Ramalho — que devolveu o cantor paraibano às paradas depois de um período afastado da mídia.

Quais bordões a novela deixou?

  • “Tô certo ou tô errado?” — Sinhozinho Malta, sacudindo as pulseiras e o relógio num tique sonorizado como chocalho de cascavel.
  • “Minaaaaaaa!” — Porcina convocando a empregada fiel de Ilva Niño.
  • Cachorrinho e Santinha — o apelido que o casal trocava nas brigas e reconciliações; ele chegava a ficar de quatro e lamber a mão da “dona”.
  • “Miércoles!” e “Carácoles!” — da falsa portenha Amparito Hernandez, vivida por Nélia Paula.

Sinhozinho também rendeu efeito colateral no comércio: segundo dados da época, a venda de perucas no país subiu 80% por influência do personagem.

Por que a trilha sonora ficou tão famosa?

Dominguinhos & Chico Buarque – Isso Aqui Tá Bom Demais (Roque Santeiro Soundtrack)

Porque foi escolhida a dedo, tema por tema, personagem por personagem.

A abertura, “Santa Fé”, de Moraes Moreira e Fausto Nilo, na voz de Moraes Moreira, abre citando Deus e o Diabo na Terra — referência direta ao clássico de Glauber Rocha, que também trata de coronelismo e misticismo no sertão. Não é coincidência: três atores de Deus e o Diabo na Terra do Sol estavam no elenco da novela.

Os temas principais do volume 1:

  • “Isso Aqui Tá Bom Demais”, Dominguinhos — Sinhozinho Malta
  • “A Outra”, Simone — Lulu
  • “Chora Coração”, Wando — Mocinha
  • “Mistérios da Meia-Noite”, Zé Ramalho — o lobisomem
  • “Dona”, Roupa Nova — Porcina
  • “De Volta Pro Aconchego”, Elba Ramalho — Roque
  • “Roque Santeiro”, Sá e Guarabyra — Asa Branca
Roque Santeiro, por Sá e Guarabyra

O volume 1 vendeu mais de meio milhão de cópias em três meses. O sucesso foi tanto que a Som Livre abriu um precedente inédito: em vez de lançar a trilha internacional, lançou um segundo volume nacional.

A cena da chegada de Roque a Asa Branca, numa noite chuvosa ao fim do capítulo 26, ao som de “De Volta Pro Aconchego”, é até hoje uma das mais lembradas da teledramaturgia brasileira.

Afinal, qual foi a audiência real?

Aqui é preciso cuidado, porque as fontes divergem — e na época o Ibope media em porcentagem, não em pontos, com metodologia diferente da atual.

  • O livro Telenovela: História e Produção (Renato Ortiz, Silvia Borelli e José Mário Ortiz Ramos, 1989) registra média de 74% em São Paulo e 78% no Rio de Janeiro.
  • O Almanaque da TV (Bia Braune e Rixa) fala em média de 80%, com 70 milhões de brasileiros acompanhando.
  • O Livro do Boni (2011) sustenta 67% do primeiro ao último capítulo, com picos de 100% de audiência — não de share.

Aguinaldo Silva, em lista publicada em 2009, também cita 67 pontos, à frente de Tieta com 63. Boni, por outro lado, afirma que Tieta teria sido a maior, com Roque Santeiro em segundo.

O que não se disputa: o último capítulo bateu picos de 100%, ou seja, quem estava com a televisão ligada estava vendo Asa Branca.

Como terminou Roque Santeiro?

Com dois finais gravados, à moda de Casablanca. Ao som de “As Time Goes By” tocada na gaita, Porcina hesita entre embarcar no avião com Roque ou permanecer em Asa Branca com Sinhozinho Malta. Ela escolhe o coronel. Os dois acenam para o avião que parte.

Há quem jure que existia um terceiro final, em que Porcina ficaria com o capataz Rodésio, apaixonado em silêncio pela patroa desde sempre.

A escolha tinha leitura política. Pesquisadores associaram a opção de Porcina pelo autoritário e simpático Sinhozinho ao continuísmo da Nova República — ela era viúva sem nunca ter sido, assim como José Sarney era presidente sem nunca ter sido eleito. E Roque, o herói mitificado que não chegou a ocupar o lugar que lhe atribuíram, ecoava Tancredo Neves.

O que Roque Santeiro deixou para a televisão brasileira?

Inaugurou uma onda. Depois de anos de tramas urbanas e cariocas às oito da noite, a Globo apostou numa cidadezinha do Nordeste, trocou o melodrama psicanalítico pela caricatura e o realismo fantástico — linha que Dias Gomes já ensaiara em O Bem-Amado e Saramandaia. Aguinaldo Silva levou a fórmula adiante em Tieta, Pedra sobre Pedra, Fera Ferida e A Indomada.

Varreu os prêmios de 1985: melhor novela, melhor texto, melhor ator (Lima Duarte) e melhor atriz (Regina Duarte) pela APCA e pelo Troféu Imprensa.

Foi reprisada duas vezes na TV aberta — em 1991 e no Vale a Pena Ver de Novo em 2000 — e duas vezes no canal Viva, a última entre 2024 e 2025. Foi a primeira novela lançada em DVD, em 2010, e entrou no Globoplay em 2021.

E a censura, curiosamente, não acabou em 1985. A trama do peão João Ligeiro, originalmente homossexual, foi reprimida pela Censura Federal já na Nova República; os autores mudaram o rumo do personagem, que acabou morto no capítulo 143.

Resumindo

Roque Santeiro é a única novela brasileira cuja história começa vinte anos antes da estreia. Peça proibida em 1963, novela vetada em 1975, fenômeno nacional em 1985. A censura que tentou enterrá-la foi o que transformou sua exibição num acontecimento político — e o que fez do reencontro do país com Asa Branca uma celebração da liberdade recém-conquistada.

Décadas depois, os nomes seguem vivos: Roque, Porcina, Sinhozinho Malta, o Professor Astromar. Não só a história ficou. Ficaram os bordões, os trejeitos, as perucas e as músicas.


Perguntas frequentes sobre Roque Santeiro

Quando Roque Santeiro foi exibida?

Pela TV Globo, no horário das 20h, de 24 de junho de 1985 a 22 de fevereiro de 1986, em 209 capítulos. As fontes divergem sobre a data exata do último capítulo, entre 21 e 22 de fevereiro.

Quem escreveu Roque Santeiro?

Dias Gomes criou a história e a escreveu com Aguinaldo Silva. Dos 209 capítulos, Dias assinou 99 — os 51 iniciais, já escritos em 1975, e os 48 finais. Aguinaldo revisou os iniciais e escreveu os 110 do miolo.

Por que Dias Gomes e Aguinaldo Silva brigaram?

Pela paternidade do sucesso. Dias se afastou da novela e viajou à Europa por cerca de três meses; quando voltou, Roque Santeiro já era um fenômeno e Aguinaldo aparecia como o autor do momento. A disputa por direitos autorais chegou à direção da Globo, que arbitrou a divisão. Os dois só voltaram a se falar em 1999, pouco antes da morte de Dias Gomes.

Por que Roque Santeiro foi censurada em 1975?

Porque um grampo telefônico revelou aos militares que a novela era uma adaptação de O Berço do Herói, peça de Dias Gomes proibida desde a década de 1960. O veto chegou à Globo no próprio dia da estreia.

O que era O Berço do Herói?

Peça escrita por Dias Gomes em 1963, sobre um cabo da FEB que deserta e é confundido com herói de guerra. Foi proibida pela censura sob a alegação de que ofendia a carreira militar. É a matriz da história que viraria Roque Santeiro.

Qual novela substituiu Roque Santeiro em 1975?

Pecado Capital, escrita às pressas por Janete Clair com praticamente a mesma equipe. Enquanto isso, a Globo exibiu uma reprise compacta de Selva de Pedra para cobrir o horário.

Quem interpretou Roque Santeiro?

José Wilker, na versão de 1985.

Quem interpretou a Viúva Porcina?

Regina Duarte. Na versão censurada de 1975, o papel era de Betty Faria, que recusou reviver a personagem dez anos depois por motivos pessoais e por não se identificar com os valores da viúva.

Quem era Sinhozinho Malta?

Vivido por Lima Duarte, era o fazendeiro todo-poderoso de Asa Branca, principal interessado em manter o mito de Roque de pé — e o maior antagonista quando o santo reaparece vivo. Ficou marcado pelo tique das pulseiras e pelo bordão “Tô certo ou tô errado?”.

Quem era o lobisomem da novela?

O Professor Astromar Junqueira, interpretado por Rui Rezende. Suas aparições eram embaladas por “Mistérios da Meia-Noite”, de Zé Ramalho.

Qual era a música de abertura de Roque Santeiro?

“Santa Fé”, de Moraes Moreira e Fausto Nilo, interpretada por Moraes Moreira.

Quais atores estrearam em Roque Santeiro?

Foi a primeira novela de Lucinha Lins, Patrícia Pillar (Linda Bastos) e Cláudia Raia (Ninon), e a primeira na Globo de Othon Bastos e Tony Tornado. Maurício Mattar (João Ligeiro) ganhou ali seu primeiro personagem fixo.

Onde ficava Asa Branca?

Em lugar nenhum e em todo lugar: a cidade é fictícia, e a cidade cenográfica foi erguida em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, misturando referências de Juazeiro do Norte, Porto das Caixas e Aparecida do Norte.

Roque Santeiro foi a maior audiência da história?

As listas históricas a colocam no topo, com médias registradas entre 67% e 80% conforme a fonte, e picos de 100% no último capítulo. O número é disputado: Boni defende Tieta como a maior, enquanto pesquisas acadêmicas e listas de imprensa mantêm Roque Santeiro em primeiro.

Como terminou a novela?

Porcina escolheu ficar em Asa Branca com Sinhozinho Malta e viu Roque partir de avião, em cena inspirada em Casablanca. Dois finais chegaram a ser gravados.

Onde assistir Roque Santeiro hoje?

A novela está no Globoplay desde junho de 2021 e já foi reprisada no canal Viva, a última vez entre 2024 e 2025.


E você, acompanhou Roque Santeiro no ar em 1985 ou conheceu a história pelas músicas e pelos bordões? Conte nos comentários qual cena ficou na sua memória.

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