Como a Rádio 98 Rio Desafiou as Gravadoras e Criou um Clássico de Roberto Carlos
Como a Rádio 98 Rio FM ignorou a CBS e transformou um Lado B de Roberto Carlos no maior hit de 1984.
Imagine um disco de vinil girando. O programador segura o long play, chamado de bolacháo , olha para os dois lados e precisa decidir: qual música vai ao ar?
Parece simples. Mas em 1984, essa decisão podia fazer ou destruir uma canção. Aa gravadoras apostavam na primeira m[usica do Lado A , e assim come;avam as discussóes sobre o quye tocar de primeira na nossa programacáo.
O álbum Roberto Carlos (1984) foi lançado em dezembro de 1984. Uma citação marcante sobre este trabalho é que ele reflete o auge da fase “romântico-estradeira” do cantor, unindo a espiritualidade à paixão popular. veja qual era a primeira musica e preferida pelo divulgador da gravadora…
Lado A
- Coração
- Eu e Ela
- Aleluia
- Lua Nova
- Cartas de Amor (Love Letters)
Lado B
- Caminhoneiro
- Eu Te Amo (And I Love Her)
- Sabores
- As Mesmas Coisas
O tempo em que uma rádio escolhia o que o Brasil cantava
Havia algo de ritual sagrado naquele gesto. O compacto simples chegava à emissora dentro de um envelope bonito, enviado pela gravadora com a esperança de que um programador ou locutor — ou apenas um locutor, em uma tarde qualquer — decidisse colocar aquilo no ar. Se ele tocasse o lado A, a gravadora ficava feliz. Era a aposta oficial, a música escolhida pelo marketing, o investimento da CBS ou da RCA naquele trimestre.
Mas se ele virasse o disco… A escokha mesmo no Lado A???
A Rádio 98 Rio FM tinha esse poder. Não era a maior do país em números brutos, mas era a que formava gosto. Tocava no carro dos cariocas, vazava pelas janelas abertas dos apartamentos de Copacabana, entrava nas cozinhas do subúrbio. O que a 98 tocava na sexta-feira, o Brasil inteiro cantarolava na segunda.

Roberto Carlos em 1984: o Rei ainda precisava de rádio?
Sim. Sempre precisou.
Há um equívoco muito difundido sobre artistas do porte de Roberto Carlos — a ideia de que, em certo ponto da carreira, eles simplesmente existem, e as músicas se vendem sozinhas. (Confesso que eu mesmo já acreditei nisso por muito tempo.) Não é bem assim. Em 1984, Roberto tinha 43 anos, três décadas de carreira e uma base de fãs que bordava seu nome em fronhas de travesseiro. E ainda assim, precisava das rádios.
O mercado fonográfico brasileiro dos anos 80 funcionava numa lógica simples e brutal: sem rotação em rádio, não havia disco nas prateleiras das Lojas Americanas. Sem disco nas prateleiras, não havia show lotado no Maracanãzinho. A cadeia era assim, e não havia algoritmo nenhum para contorná-la.
Eu e Ela chegou como lado B do compacto. A aposta oficial da gravadora era outra faixa — mais dançante, mais alinhada ao que o rádio AM costumava pedir naquele ano. Fórmula segura. Produto calculado.
Só que a 98 virou o disco.
O que havia naquela canção que os executivos não viram
Isso é o que os especialistas em música comercial frequentemente ignoram: a diferença entre o que funciona no escritório e o que funciona dentro de um carro engarrafado na Linha Vermelha.
Eu e Ela era uma balada de contenção rara. Roberto não gritava o amor — ele o confessava em voz baixa, quase constrangida, como quem conta um segredo que não pretendia contar. A melodia tinha aquela qualidade específica de certas músicas dos anos 80: começava modesta e ia crescendo sem que você percebesse, até que de repente você estava cantando junto sem ter decidido fazer isso.
Na rádio, isso vale ouro.
Numa época sem botão de pular, sem playlist personalizada, sem nada — o ouvinte estava à mercê do locutor. E quando uma música como aquela começava a tocar, as mãos paravam de mexer no dial. Esse era o teste real. Não a opinião do diretor artístico. Não a preferência do produtor. O dial que parava de girar.
A decisão humana que o streaming nunca vai replicar
Agora, pensando bem, há algo de irrecuperável naquele modelo que a gente às vezes romantiza demais — e às vezes de menos.
Era imperfeito. Era arbitrário. Dependia do humor de um locutor numa tarde de quarta-feira, de uma aposta pessoal, de uma intuição que poderia estar completamente errada. Quantas Eu e Ela nunca existiram porque o locutor não virou o disco? Quantas músicas extraordinárias morreram no lado B para sempre, sem que ninguém soubesse o que estava perdendo?
A pergunta fica no ar. Não tem resposta boa.
Mas o que esse sistema produzia, quando acertava, era diferente do que os algoritmos produzem hoje. Quando a 98 Rio decidia apostar numa música, ela não estava otimizando para o comportamento médio de 47 milhões de usuários. Ela estava fazendo uma escolha editorial com rosto e nome. Alguém colocava o pescoço em jogo. E quando a aposta dava certo — quando o telefone da rádio começava a tocar pedindo pra repetir —, havia ali uma cadeia humana inteira conectando o artista ao ouvinte.
Roberto gravou. Alguém na gravadora incluiu no compacto. Um locutor virou o disco. Um ouvinte parou de girar o dial. E uma música virou parte da memória afetiva de um país.
O que o lado B nos ensina sobre risco e curadoria
Tem uma lição de negócios escondida aqui que vale mais do que parece à primeira vista — e que vai muito além do mercado fonográfico.
A gravadora apostou no lado A porque era seguro. Calculado. Previsível dentro dos parâmetros que o mercado havia estabelecido. O lado B existia quase como cortesia, como espaço para uma música que o artista gostava mas que “talvez não fosse comercial o suficiente”.
E foi exatamente essa música, a que talvez não fosse comercial o suficiente, que tocou algo nos ouvintes que a outra não conseguiu.
Os executivos de música dos anos 80 não eram burros. Eram competentes dentro de uma lógica que havia funcionado por décadas. O problema é que competência dentro de uma lógica estabelecida às vezes te impede de enxergar o que está fora dela. A 98 Rio enxergou porque tinha liberdade editorial — e porque alguém lá dentro ainda ouvia música como ouvinte, não como planilha.
1984, o Brasil e a textura específica daquele amor no rádio
Vale lembrar o contexto, porque contexto sempre importa mais do que a gente acha.
O Brasil de 1984 estava no meio da campanha das Diretas Já. As pessoas saíam às ruas, choravam em praças públicas, sentiam uma energia coletiva que misturava esperança e medo em proporções iguais. Nesse clima de agitação política, Eu e Ela chegava como uma espécie de contraponto íntimo — uma canção sobre dois, sobre o pequeno espaço privado que persiste mesmo quando o mundo lá fora ferve.
Não sei se Roberto Carlos pensou nisso ao gravar. Provavelmente não. As melhores músicas raramente são calculadas dessa forma. Mas o timing tinha uma lógica emocional própria, daquelas que a gente só entende olhando para trás.
O que ficou
Eu e Ela entrou para o repertório permanente de Roberto Carlos. Virou clássico. Daquelas músicas que aparecem no fim dos shows, quando as luzes baixam e o público acende os isqueiros — ou hoje, os celulares, que é uma imagem menos bonita mas igualmente verdadeira.
Tudo isso porque alguém na Rádio 98 Rio FM virou um disco numa tarde de 1984.
A pergunta que fica — e que não tem resposta fácil — é se ainda existe espaço, dentro da lógica do streaming e dos algoritmos de recomendação, para esse tipo de aposta humana e irresponsável. Para alguém que não sabe exatamente por quê, mas sente que aquela música precisa ser ouvida.
Ou se o lado B, hoje, simplesmente não existe mais.
