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Natalie Cole

Natalie Cole foi uma cantora premiada que uniu o R&B ao legado de seu pai, Nat King Cole. O álbum Unforgettable exemplifica a deadness, usando tecnologia para criar duetos póstumos. Sua carreira abrangeu sucessos como This Will Be e lutas contra problemas de saúde


Além da Voz: 5 Revelações Impactantes sobre a Jornada de Natalie Cole

Em 1991, o mundo da música testemunhou um evento que desafiou as fronteiras da morte e da tecnologia. Não foi apenas o lançamento de um disco de sucesso, mas um “documento liminal” que marcou a transição definitiva para a era digital. Através dos alto-falantes, a voz aveludada de Nat King Cole, falecido em 1965, entrelaçava-se à de sua filha, Natalie Cole, em um dueto de “Unforgettable”. O que parecia um tributo afetuoso era, na verdade, uma complexa rearticulação de corpos, tecnologias e memórias. Como Natalie, uma verdadeira camaleoa vocal, conseguiu emergir da sombra esmagadora de um pai lendário e de uma crise pessoal devastadora para redefinir a história do R&B?

Para compreender a magnitude dessa trajetória, é preciso mergulhar na arqueologia sonora e emocional de uma artista que transformou o luto em uma ferramenta de produção revolucionária.

1. O Dueto “Intermundano”: A Ciência de Gravar com um Fantasma

O fenômeno “Unforgettable” é o exemplo máximo do que estudiosos chamam de “necro-marketing” e colaboração intermundana. O desafio técnico não era apenas sobrepor vozes, mas realizar uma “recombinatorialidade” sonora que unisse duas épocas distintas. O ponto de partida foi a “exumação” das fitas master de 1961, gravadas originalmente no Studio A da Capitol em Nova York.

Naquela época, Nat King Cole gravava em fitas de três canais, posicionado atrás de um gobo (um painel de isolamento) para tentar separar sua voz da orquestra de 25 músicos. No entanto, o isolamento não era perfeito; ocorria o chamado leakage effect, onde o som da orquestra “vazava” para o microfone de Nat. Em 1991, no seu estúdio em Malibu, o produtor David Foster e o engenheiro Al Schmitt tiveram que lidar com a rhizophonia — a fragmentação entre o som e sua fonte original. Eles atuaram como arqueólogos, filtrando cirurgicamente os rastros “fantasmagóricos” da orquestra de 1961 para abrir espaço para a nova instrumentação sem ferir a integridade da voz de Nat.

“Aquele momento em que as duas [Natalie e sua mãe, Maria] estavam ouvindo foi incrível. Seus olhos estavam fechados. No momento em que Nat respondeu Natalie, ambas começaram a chorar. Era como se ele estivesse bem ali, sobre os ombros dela.” — David Foster, descrevendo o impacto emocional da técnica.

2. A “Nova Aretha” e a Quebra de um Reinado Histórico

Lançar Natalie Cole em 1975 foi um movimento estratégico agressivo da Capitol Records. Produzida pela talentosa dupla Chuck Jackson e Marvin Yancy, Natalie foi vendida ao público como a “Sucessora de Aretha Franklin”. O álbum de estreia, Inseparable, foi um triunfo instantâneo, mas Natalie carregava o fardo de ser comparada à Rainha do Soul enquanto ainda tentava estabelecer sua própria identidade no R&B visceral.

A consagração veio com um impacto histórico sem precedentes: Natalie tornou-se a primeira artista negra a vencer o Grammy de “Best New Artist”. Mais do que isso, ela conseguiu o feito impensável de interromper a sequência de oito anos consecutivos de vitórias de Aretha Franklin na categoria de Melhor Performance Vocal de R&B Feminina. Ao vencer com “This Will Be (An Everlasting Love)”, Natalie provou que não era apenas um eco do passado ou um produto de linhagem, mas uma força contemporânea que exigia seu próprio trono.

3. Natalie Live!: O “Wailing” como Libertação Espiritual

O álbum Natalie Live!, lançado em 1978, captura a energia frenética de uma artista em seu auge performático. O disco combina gravações do Universal Amphitheatre (1977) e do Latin Casino (1978). Um detalhe fascinante é que, nos shows de 1977, Natalie estava no estágio final de gravidez, chegando a brincar com a plateia sobre os “negócios” que teria de resolver nas semanas seguintes.

Nesse período, sua performance era uma mistura explosiva de R&B e influências psicodélicas, como sua versão de “Lucy in the Sky with Diamonds”. Natalie buscava no palco uma forma de “corpauralidade” — onde o som e o corpo se fundem. Inspirada pela entrega crua de sua cantora de rock favorita, Janis Joplin, e pelo vigor de Chaka Khan, ela utilizava o wailing (um lamento poderoso) como uma ferramenta de libertação espiritual.

“Gritar/lamentar (wailing) é bom para a alma às vezes.” — Natalie Cole, em sua autobiografia Angel On My Shoulder.

4. O Triunfo sobre as Chamas: A Intervenção “Coveira”

A trajetória ascendente de Natalie quase foi interrompida pela possessão destrutiva da dependência química (heroína e crack). O ponto mais sombrio dessa “queda livre” ocorreu quando ela quase morreu em um incêndio residencial; Natalie estava tão consumida pela droga que ignorou as chamas que devoravam sua casa para continuar o consumo.

A virada definitiva aconteceu em 1983, através de uma intervenção liderada por seus representantes. O tom da reunião foi deliberadamente lúgubre, descrito como “de agente funerário” (undertaker-like). Seus agentes foram diretos: “Nós apenas sabemos que você vai morrer”. Esse confronto com a própria mortalidade a levou à sobriedade. Esse renascimento pessoal foi o alicerce necessário para que, anos depois, ela tivesse a clareza e a força para produzir Unforgettable… with Love, que venderia mais de 7 milhões de cópias e ganharia sete discos de platina.

5. O Perfeccionismo Técnico: O “Click Track” Humano

A arqueologia sonora necessária para o dueto de 1991 enfrentou um obstáculo rítmico fundamental. Como Nat King Cole gravou em 1961 sem metrônomos eletrônicos, sua performance continha flutuações naturais de tempo — ele acelerava e desacelerava organicamente conforme a emoção. Um metrônomo digital comum seria incapaz de seguir essa “pulsação viva”.

Para resolver o problema, Al Schmitt recrutou o veterano baterista Sol Gubin para criar um “click track humano”. Gubin ouviu a gravação original e tocou uma trilha de referência, mapeando cada variação milimétrica do tempo de Nat. Foi esse guia humano que permitiu à orquestra de 1991 e à voz de Natalie se sincronizarem perfeitamente com o passado. Através do uso de filtros analógicos para limpar a voz de Nat e da precisão de Gubin, o encontro soou como uma conversa natural, uma agencialidade distribuída entre pai e filha através de três décadas.

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Um Legado de Corpauralidade e Futuro

Natalie Cole foi a “camaleoa vocal” definitiva, capaz de saltar do rock psicodélico para o jazz clássico com a mesma maestria técnica. Sua carreira não foi apenas sobre música; foi sobre o uso da tecnologia para realizar um luto produtivo e manter uma presença efetiva no mundo. Mesmo após sua partida em 2015, sua voz continua a “colaborar” com o presente, utilizando as ferramentas de “necro-sonics” que ela ajudou a inaugurar.

Em um mundo saturado por inteligência artificial e vozes sintéticas, o que o dueto de Natalie nos ensina sobre a verdadeira conexão entre as gerações? Talvez que a tecnologia, quando movida pela emoção humana e pelo rigor técnico, pode ser a ponte final para que o amor se torne, de fato, inesquecível.

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Natalie Cole: A Voz que Venceu o Silêncio e Uniu Gerações

Natalie Maria Cole nasceu no epicentro da realeza cultural. Filha de Nat King Cole, ela cresceu em Hancock Park, Los Angeles, em uma família que descrevia como os “Black Kennedys”. Para um jovem de hoje, esse termo pode soar apenas como riqueza, mas representava algo mais profundo: o ápice da excelência negra em uma era de segregação. Ser um “Kennedy Negro” significava carregar o peso de uma perfeição pública impecável, onde o talento era um dever e a vulnerabilidade, um risco.

Ao lançar seu álbum de estreia, Inseparable (1975), Natalie recusou-se a ser apenas a herdeira do jazz de seu pai. Ela mergulhou no R&B visceral, conquistando o Grammy de Best New Artist e quebrando o recorde de Aretha Franklin, que vencera a categoria de Melhor Performance Vocal R&B por oito anos consecutivos. No entanto, o pedestal era precário; a pressão de ser “a próxima Aretha” e a sombra do pai, que partiu quando ela tinha apenas 15 anos, criaram um vazio que o sucesso não conseguia preencher.

“Eu estava determinada a criar minha própria identidade. Meus primeiros sucessos eram puro rhythm and blues. Minha voz era comparada à de Aretha Franklin, mas, para o meu dinheiro, ninguém se compara a Aretha.”Natalie Cole, em sua biografia Love Brought Me Back.

Entretanto, o brilho das luzes escondia uma escuridão crescente. O luto não processado e a cobrança por uma perfeição heráldica levaram Natalie a um abismo que quase silenciou sua música para sempre.

O Vale das Sombras: A Luta contra o Vício e a Superação

Durante os anos 80, Natalie viveu o que chamamos de “o vale das sombras”. O vício em heroína e cocaína não era apenas uma escolha rebelde, mas um sintoma de uma dor profunda e de uma identidade sufocada pela fama. O “so what?” pedagógico aqui é claro: sem enfrentar o luto e a pressão interna, até o maior dos talentos pode se autodestruir.

Três momentos marcaram seu fundo do poço: o incêndio em sua casa onde, paralisada pelas drogas, ela assistiu às chamas sem reagir; o terrível episódio em que seu filho, Robert, quase se afogou na piscina enquanto ela estava em um surto de uso; e sua prisão em Toronto por posse de heroína. O vício a transformou de “realeza” em alguém que a indústria já considerava descartável.

O Declínio (Sintomas do Vício)A Virada (O Processo de Recuperação)
Apatia no Palco: Performances inconsistentes e perda total do entusiasmo profissional.Intervenção Crítica (1983): Seu agente e advogados agiram como “agentes funerários”, alertando que ela morreria em breve.
Riscos Pessoais Extremos: Negligência familiar grave e incidentes de quase morte (fogo e afogamento).Hazelden Clinic: Internação em Minnesota. Natalie passou dois anos enfrentando o medo até que o desejo químico cessasse.
Decadência Comercial: Perda de contratos com grandes selos, movendo-se para gravadoras menores como a Epic.Resiliência e Rebranding: Retorno triunfal com o álbum Everlasting (1987), provando ser uma “vocalista camaleão”.

Ao recuperar sua vida, ela estava finalmente pronta para o reencontro mais difícil e aguardado de sua trajetória: o diálogo com o silêncio de seu pai.

3. O Ápice Tecnológico e Emocional: O Fenômeno ‘Unforgettable’

Em 1991, o estúdio de gravação deixou de ser apenas uma sala técnica para se tornar um “espaço morto” onde a vida foi soprada de volta ao passado. O álbum Unforgettable… with Love não foi apenas um truque de marketing; foi uma reconciliação espiritual. Através da tecnologia, Natalie conseguiu finalmente “dar as mãos” ao pai e processar a dor da perda.

A magia do dueto virtual com Nat King Cole foi possível graças a 3 Inovações Técnicas e Humanas:

  1. A “Human Click Track” de Sol Gubin: Como as gravações originais de Nat em 1961 não seguiam metrônomos digitais e flutuavam no tempo, o veterano baterista Sol Gubin gravou uma guia rítmica humana, respirando junto com a fita antiga para que a nova orquestra pudesse sincronizar perfeitamente.
  2. O “Hand-Limiting” de Al Schmitt: O engenheiro de som Al Schmitt, um mestre da “velha escola”, recusou-se a usar apenas limitadores automáticos. Ele controlou o volume da voz de Natalie manualmente, frase por frase, para garantir que a textura de sua voz se fundisse organicamente com a de seu pai, mantendo o “grão” e a emoção de ambos.
  3. O Efeito de “Pre-echo” no Terceiro Verso: Usando o sistema digital AMS DMX 15-80s, a equipe isolou frases de Nat e as moveu digitalmente. No terceiro verso, a tecnologia permitiu que Nat “respondesse” a Natalie, criando o que ela sentiu ser um “beijo virtual” ou um eco vindo do futuro.

Essa inovação provou que a tecnologia, quando movida pelo afeto, pode fechar feridas geracionais.

4. Saúde, Resiliência e o Impacto Final

A vida de Natalie foi uma sucessão de batalhas. O passado com drogas injetáveis deixou uma herança amarga: o diagnóstico de Hepatite C em 2008, que evoluiu para a falência renal. Mesmo fazendo diálise três vezes por semana entre shows, ela nunca parou.

Em 2009, Natalie recebeu um rim através de uma “doação designada” — uma família, tocada por sua vulnerabilidade ao falar sobre sua saúde no programa de Larry King, solicitou que o órgão do seu ente querido fosse para ela. O momento foi agridoce: Natalie recebeu a chance de viver no mesmo dia em que sua irmã, Cooke, faleceu de câncer. Natalie canalizou essa dor tornando-se porta-voz da UKRO (University Kidney Research Organization), transformando sua luta pessoal em causa pública.

Natalie Cole deixou um legado como a vocalista mais versátil de sua geração, capaz de transitar entre o Jazz, o R&B e o Rock (como em seu cover de “Pink Cadillac”).

Destaques da Carreira:

  • Primeira Mulher Afro-Americana a vencer o prêmio de Álbum do Ano no Grammy (1992).
  • Primeira Artista Negra a vencer o Grammy de Best New Artist (1976).
  • 9 Prêmios Grammy ao longo de quatro décadas.
  • Versatilidade Única: Interpretou desde clássicos dos Beatles (“Lucy in the Sky with Diamonds”) até o blues visceral de Etta James.

5. Conclusão: Lições de uma Estrela Inesquecível

A trajetória de Natalie Cole nos ensina que o sucesso não é o destino, mas a coragem de se reconstruir após a queda. Ela provou que a tecnologia não precisa ser fria; ela pode ser a ponte que nos permite abraçar quem já se foi. Para as novas gerações, Natalie deixa a lição de que ser vulnerável é uma forma de poder e que, ao enfrentarmos nossas sombras e honrarmos nossas raízes, transformamos nossa dor na música mais inesquecível de todas.

Natalie Cole & Nat King Cole “Unforgettable” 1991 (audio remastered)

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