Morre Formiga – Sonoplasta genial da vinheta clássica da Seleção Brasileira

Um dos autores da famosa vinheta “Brasil-sil-sil”, José Cláudio Barbedo, carinhosamente chamado de Formiga, faleceu nesta quarta (18) no Rio de Janeiro.


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Segue analise de Formiga sobre o Radio nos dias atuais

O Rádio Não Morreu: Ele Apenas Ganhou Novos Aliados (e Identidades)

O mantra de que “o rádio está morrendo” tornou-se um clichê ultrapassado. Como estrategista de inovação, vejo um cenário oposto: o rádio não está desaparecendo; ele está realizando uma migração sofisticada do hardware para o software. O que estamos testemunhando é uma infiltração estratégica em novas camadas tecnológicas, onde o rádio deixa de ser um “aparelho” estático para se tornar um serviço onipresente e multiplataforma. O hábito de ouvir não foi perdido — ele foi apenas redistribuído em ecossistemas mais inteligentes.

1. Smart Speakers: O Novo Centro de Gravidade do Áudio

As Smart Speakers são os cavalos de troia que trouxeram o rádio de volta ao coração dos lares. Dispositivos como o Amazon Echo (com a voz da Alexa) e o Google Home (impulsionado pelo assistente Duplex) estão redefinindo a fricção de consumo. Em 2018, já tínhamos mais de 50 milhões dessas unidades instaladas, com projeções que ultrapassavam os 125 milhões de usuários interagindo por voz até 2021.

O impacto estratégico é a eliminação das barreiras físicas da sintonização. Não se busca mais uma frequência; solicita-se uma marca. No entanto, essa tecnologia ainda carrega suas excentricidades: o Google Duplex, por exemplo, ainda flerta com uma estética sonora que oscila entre o robótico e o “misterioso” — o que alguns profissionais do setor chamam ironicamente de “robô-trash”. Há relatos anedóticos de assistentes que, no silêncio da noite, começam a conversar entre si ou contar piadas sozinhos, revelando que ainda estamos na infância dessa inteligência artificial.

“A facilidade é o novo padrão: se eu disser à Alexa para ligar na rádio clássica enquanto estou na cama ou cozinhando, ela sintoniza instantaneamente. O rádio volta a ser o companheiro imediato, sem que o ouvinte precise sequer olhar para uma tela.”

2. A Geopolítica dos Padrões Digitais

A guerra dos padrões de rádio digital terrestre é um campo de batalha fragmentado que exige uma leitura técnica precisa. O HD Radio consolidou-se nos EUA, mas falhou em ganhar tração global. Na contramão, o DAB (Digital Audio Broadcasting) domina a Europa (Noruega, Inglaterra, Suíça), mas é um modelo que não serve para o Brasil.

O motivo é estrutural: o DAB opera no sistema de Multiplex, onde diversas rádios dividem o mesmo “tubo” de transmissão. Isso funciona em países pequenos com redes em cadeia, mas mataria a independência do radiodifusor local brasileiro, que preza pela autonomia de sua própria torre e sinal. Enquanto isso, o DRM (Digital Radio Mondiale) permanece tecnicamente robusto, mas sofre de uma “anemia” de receptores acessíveis no mercado.

A grande disrupção, porém, pode vir do Oriente. A China está desenvolvendo seu próprio padrão — um “espelho” do HD Radio que utiliza a mesma frequência do analógico. Se a China decidir massificar esse padrão e inundar o mercado mundial com receptores integrados de baixo custo, ela poderá resolver por gravidade o problema que o DRM e o HD Radio não conseguiram solucionar em décadas.

3. Streaming: Um Mandato de UX (User Experience)

Antes mesmo que o rádio digital terrestre se defina, o streaming já venceu a batalha da distribuição. Para o radiodifusor, cuidar do streaming não é mais opcional; é um mandato de sobrevivência de marca.

O comportamento do ouvinte mudou drasticamente: hoje, o rádio é consumido massivamente via fones de ouvido. Isso altera completamente a exigência técnica. Em um fone de alta fidelidade, qualquer imperfeição na cadeia de processamento ou uma compressão de baixo bitrate torna-se um “brand-killer”. O streaming exige um tratamento de áudio diferenciado, com processadores dedicados que entreguem uma experiência imersiva e cristalina, sob o risco de o ouvinte migrar para uma playlist de alta definição em segundos.

4. Engenharia Virtualizada: A Nuvem no Som

A inovação também atingiu o CAPEX (investimento em capital) das emissoras. O tempo de comprar hardware às cegas acabou. Hoje, empresas como Omnia e Wheatstone permitem que engenheiros testem seus processadores de som em tempo real através da nuvem, utilizando ferramentas como o “Log-in Knocker”.

Essa virtualização permite que o dono da rádio ou o engenheiro interaja com os botões e parâmetros de um equipamento físico localizado a milhares de quilômetros de distância, ouvindo o resultado instantaneamente no seu navegador. Isso democratiza o acesso à alta tecnologia e reduz drasticamente o risco do investimento, permitindo que a rádio ajuste sua “assinatura sonora” antes mesmo do equipamento chegar à bancada.

5. A Regra de Ouro: Acústica e a Fidelidade do “Rei”

Nenhuma tecnologia digital salva uma captura de áudio medíocre. Aqui reside a “Linha Dourada” que conecta o passado ao futuro: o aumento do consumo por fones de ouvido (Streaming) torna os defeitos acústicos do estúdio muito mais evidentes. Se a acústica é ruim, o som será “poroso” e cansativo.

A bíblia para resolver isso continua sendo o “Manual Prático de Acústica”, de Solon do Vale. Por cerca de 40 reais, o radiodifusor tem acesso aos fundamentos que engenheiros da TV Globo utilizaram por décadas. Não importa se você transmite via satélite ou Wi-Fi; se a base acústica falha, o produto final é pobre.

Essa busca pela pureza sonora explica o fenômeno “retrô” do Vinil. Até mesmo Roberto Carlos, o “Rei”, rendeu-se ao formato lançando seu icônico vinil azul. O mercado de alta fidelidade não é apenas nostalgia; é uma declaração de que a textura e o calor do som importam mais do que a conveniência da compressão.

O Rádio “Sem Rádio”

O rádio provou ser o camaleão das mídias. Ele deixou de ser um objeto de plástico sobre o buffet da sala para se tornar um fluxo de dados inteligente que nos persegue — no bom sentido — através da Alexa, do smartphone e do painel do carro.

Estamos entrando na era do “Rádio sem Rádio”, onde o conteúdo é soberano e a plataforma é fluida. A pergunta estratégica que fica para o radiodifusor e para o ouvinte não é mais sobre qual frequência sintonizar, mas sim: a sua entrega técnica e acústica está pronta para a clareza impiedosa dos novos tempos?

LADRÕES-DE-QUALIDADE-ACERT2018

Descanse em paz, querido Formiga. Um dos grandes que tive o prazer de ser aluno. Sérgio Duarte

Edmo Zarife explica como surgiu a vinheta ‘Brasil-sil-sil’

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