Como a IA Generativa Pode Impactar Milhões de Empregos
IA generativa pode impactar 31,3 milhões de empregos no Brasil. Tecnologia transforma funções, aumenta produtividade em 4,8 vezes e cria novas profissões, exigindo requalificação contínua dos trabalhadores.
A inteligência artificial generativa está redefinindo o futuro do trabalho em escala global. Estudos recentes revelam que essa tecnologia tem potencial para transformar profundamente o mercado de trabalho, afetando milhões de trabalhadores em diversos setores. Mas ao contrário do que muitos temem, o cenário não é apenas de substituição – é sobretudo de transformação.
O Impacto Global: Números que Impressionam
Pesquisas conduzidas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisa da Polônia apontam que um em cada quatro empregos no mundo está potencialmente exposto à inteligência artificial generativa. Isso representa aproximadamente 25% de todas as ocupações globais que podem passar por transformações significativas nos próximos anos.
No Brasil, os números são igualmente expressivos. Segundo análise da consultoria LCA 4Intelligence baseada em dados da OIT, a IA generativa pode impactar 31,3 milhões de empregos no país. Desse total, aproximadamente 5,5 milhões de trabalhadores estão em áreas com alto risco de automação, representando 5,4% da força de trabalho brasileira.
América Latina no Centro da Transformação
A região da América Latina e Caribe enfrenta um cenário particular. Estudos conjuntos da OIT e do Banco Mundial indicam que entre 26% e 38% dos empregos na região poderiam ser diretamente influenciados pela IA generativa. No entanto, a tecnologia tende mais a aumentar e transformar os empregos do que automatizá-los totalmente.
Os dados mostram que entre 8% e 14% dos empregos na região poderiam ter ganhos significativos de produtividade com a IA generativa, enquanto apenas entre 2% e 5% enfrentam risco real de automação completa.
Produtividade em Alta: O Lado Positivo da Transformação
Um dos aspectos mais animadores dessa revolução tecnológica é o ganho de produtividade. O Barômetro Global de Empregos em IA 2024 da PwC revelou que setores que já utilizam inteligência artificial experimentaram um aumento de produtividade de 4,8 vezes em relação à taxa anterior.
Pesquisas da OIT estimam que 12,9% dos empregos no Brasil podem experimentar aumento significativo de produtividade com a adoção da IA generativa. Para os CEOs brasileiros, esse otimismo é compartilhado: 71% acreditam que a tecnologia aumentará a eficiência do tempo de trabalho de seus funcionários.
Além disso, estudos da BCG indicam que a IA generativa tem potencial para gerar cerca de 30% de aumento de produtividade em toda a jornada atendida pelo setor de Recursos Humanos no curto prazo.
Quem Está Mais Exposto?
A distribuição do impacto da IA não é uniforme. Alguns grupos e profissões estão mais expostos que outros:
Mulheres: No Brasil, 7,8% das mulheres estão em profissões com alto risco de automação, mais do que o dobro da proporção masculina de 3,6%. Isso ocorre porque mulheres predominam em funções administrativas, de atendimento ao cliente e financeiras – áreas altamente suscetíveis à automação.
Jovens: Os trabalhadores mais jovens, especialmente na faixa de 14 a 17 anos, ocupam o terceiro grupo mais vulnerável. Cerca de 12,8% dos trabalhadores nesta faixa etária estão em ocupações com alta exposição à IA, refletindo sua maior presença em funções administrativas e operacionais.
Trabalhadores urbanos qualificados: Paradoxalmente, profissionais urbanos com maior escolaridade e em setores formais enfrentam maiores riscos de transformação, pois suas atividades envolvem tarefas cognitivas que a IA pode auxiliar ou automatizar.

A análise da LCA identificou 13 áreas profissionais com maior exposição à automação por IA generativa:
- Profissionais administrativos e de escritório
- Analistas financeiros e contadores
- Atendentes de telemarketing e suporte ao cliente
- Assistentes jurídicos
- Bancários e caixas
- Operadores de dados e estatísticos
- Profissionais de recursos humanos
- Analistas de crédito
- Agentes de viagens e reservas
- Técnicos em contabilidade
- Secretários executivos
- Corretores de seguros
- Avaliadores e peritos
Funções administrativas são as que sofrerão os maiores impactos, devido à capacidade da IA de automatizar muitas tarefas rotineiras. Setores altamente digitalizados relacionados com tarefas cognitivas – incluindo mídia, desenvolvimento de software e finanças – também estão entre os mais expostos.
Transformação, Não Extinção
É importante ressaltar que o impacto da IA não significa necessariamente o fim dessas profissões. Bruno Imaizumi, autor do estudo da LCA, explica que o que ocorrerá é uma “reestruturação de tarefas dentro das ocupações, com a IA assumindo partes rotineiras, liberando tempo para atividades mais complexas e criativas”.
A automação total do trabalho continua limitada, pois muitas tarefas, embora realizadas de forma mais eficiente com IA, ainda exigem intervenção humana. A tecnologia funciona mais como uma ferramenta de apoio que potencializa as capacidades humanas do que como substituta completa.
Novas Oportunidades no Horizonte
Enquanto algumas funções se transformam, outras surgem. A Accenture prevê que até 2025, 97 milhões de novas funções podem emergir por conta da relação entre pessoas e tecnologia. A PwC estima que 2,7 milhões de empregos podem ser criados no Reino Unido até 2037 devido à IA.
No Brasil, a demanda por profissionais qualificados em IA cresceu 97% nos últimos três anos e deve subir mais 150% até 2025, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Software. Dados da Gupy revelaram um aumento de 306% na busca das empresas por profissionais com conhecimento em IA.
Novas profissões estão surgindo:
- Engenheiros de Prompt: especialistas em criar instruções eficazes para sistemas de IA
- Analistas de Ética em IA: profissionais focados em avaliar riscos, impactos sociais e garantir uso responsável da tecnologia
- Desenvolvedores de Soluções com IA: criadores de automações e scripts inteligentes que otimizam processos empresariais
- Cientistas de Dados: profissionais que interpretam e extraem insights de grandes volumes de dados
O Desafio das Competências
Um dos maiores obstáculos para aproveitar os benefícios da IA é a qualificação profissional. Segundo pesquisa da PwC, 77% dos CEOs no Brasil antecipam que a IA generativa exigirá que a maior parte de sua força de trabalho desenvolva novas competências.
A demanda por habilidades técnicas está mudando rapidamente. Enquanto competências que a IA pode auxiliar – como programação básica – veem sua demanda diminuir, outras estão em alta: pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos, empatia, comunicação e colaboração.
Como enfatiza o professor da Harvard Business School: “A IA não substituirá humanos. Mas humanos com IA substituirão humanos sem IA”.
A Barreira da Desigualdade Digital
Um desafio crítico, especialmente em países em desenvolvimento, é a infraestrutura digital. O estudo da OIT destaca que quase metade dos empregos que poderiam se beneficiar da IA no Brasil são prejudicados pela falta de acesso a tecnologias digitais e infraestrutura adequada.
Na América Latina e Caribe, essa brecha digital pode impedir milhões de trabalhadores de aproveitarem os benefícios da IA generativa. Cerca de 17 milhões de empregos na região (7 milhões para mulheres e 10 milhões para homens) poderiam ter maior produtividade, mas são limitados pela falta de acesso à tecnologia.
O Fator Humano Permanece Essencial
Apesar de todo o avanço tecnológico, há aspectos em que a IA não consegue competir com humanos: as habilidades sociais e emocionais. Empatia, inteligência emocional, criatividade genuína, julgamento ético e capacidade de construir relacionamentos autênticos continuam sendo diferenciais exclusivamente humanos.
O Relatório de Empregabilidade da Gupy para 2025 aponta que essas soft skills serão cada vez mais valorizadas. À medida que a IA assume tarefas técnicas e rotineiras, as competências humanas tornam-se o principal fator de diferenciação profissional.
Desafios Éticos e Sociais
A implementação da IA no mercado de trabalho traz questões importantes:
Percepção negativa: Estudos da Universidade de Duke revelam que funcionários que utilizam ferramentas de IA são frequentemente vistos como menos competentes, menos independentes e mais preguiçosos pelos colegas, criando um estigma social.
Ansiedade dos trabalhadores: Pesquisa da Page Interim mostra que 76,6% dos trabalhadores brasileiros acreditam que a IA substituirá seus empregos, revelando alto nível de preocupação.
Desigualdade crescente: Se não houver políticas públicas adequadas, a IA pode ampliar desigualdades existentes, beneficiando principalmente trabalhadores urbanos, qualificados e de alta renda.
Caminhos para o Futuro
Especialistas apontam ações essenciais para navegar essa transformação:
Para trabalhadores:
- Investir em aprendizado contínuo e requalificação
- Desenvolver habilidades complementares à IA
- Familiarizar-se com ferramentas de IA relevantes para sua área
- Cultivar competências humanas insubstituíveis
Para empresas:
- Investir em treinamento e capacitação de funcionários
- Implementar IA de forma ética e transparente
- Criar planos de transição para funções transformadas
- Valorizar o potencial humano além da produtividade
Para governos:
- Expandir infraestrutura digital e acesso à tecnologia
- Fortalecer sistemas de proteção social
- Criar programas de requalificação profissional em larga escala
- Desenvolver políticas que orientem transições digitais justas
Conclusão: Uma Revolução de Oportunidades
A IA generativa representa uma transformação comparável às revoluções industriais anteriores. Pesquisas da McKinsey estimam que a tecnologia pode gerar US$ 13 trilhões para a economia mundial até 2030. No entanto, esse potencial só se concretizará plenamente com investimentos adequados em capacitação, infraestrutura e políticas inclusivas.
O futuro do trabalho não será definido pela IA sozinha, mas pela forma como sociedades, empresas e indivíduos escolhem interagir com essa tecnologia. Com preparação adequada, políticas públicas eficazes e compromisso com a inclusão digital, a IA generativa pode impulsionar desenvolvimento econômico e social, criando mais oportunidades do que ameaças.
A mensagem é clara: a adaptação é inevitável, mas o resultado depende das escolhas que fazemos hoje. Aqueles que investirem em aprendizado, desenvolverem competências complementares à IA e cultivarem suas qualidades essencialmente humanas estarão melhor posicionados para prosperar nessa nova era do trabalho.
Artigo baseado em dados de pesquisas recentes da OIT, PwC, LCA 4Intelligence, Banco Mundial, McKinsey, BCG, Accenture e outras instituições de pesquisa, coletados entre 2024 e 2025.




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